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A Invenção de Hugo Cabret


Em uma cena de “A Invenção de Hugo Cabret”, o protagonista, o menino Hugo (Asa Butterfield), relembra os últimos momentos que teve junto do pai (Jude Law). Neste momento, uma luz intermitente cobre o rosto do garoto, ao mesmo tempo em que escutamos um barulho semelhante ao de um projetor de cinema. Aqui, o que Martin Scorsese está nos dizendo fica muito claro: o cinema é a arte da memória.

Scorsese também nos fala que cinema é a arte do tempo, dos 24 quadros por segundo. Não é à toa que há tantos relógios aparecendo durante a projeção. Tempo e memória são temas que dependem tanto um do outro neste filme, que o simbolismo das engrenagens serve tanto a essa leitura quanto a outras - como a de que cada pessoa tem seu propósito dentro da grande máquina que é o mundo, na visão de Hugo.

Mais que um diretor, Scorsese é um preservador da sétima arte. Presidente da World Cinema Foundation, ele sempre faz questão de falar publicamente sobre a importância da recuperação e restauração de filmes que correm o risco de serem perdidos não só pela deterioração física provocada pelo tempo, mas também pelo simples esquecimento a que alguns diretores são condenados pelo próprio público.

Em “A Invenção de Hugo Cabret”, que é baseado no livro homônimo de Brian Selznick, Scorsese fala desse processo de esquecimento e da importância da memória, utilizando um caso verídico: o do cineasta francês Georges Méliès, precursor do cinema narrativo e do uso de efeitos especiais. Você certamente o conhece pelo clássico de 1902 “A Viagem à Lua”, mas talvez não saiba que você só conhece esse filme porque alguém, lá atrás, resgatou Méliès do esquecimento.

Ao mesmo tempo, Scorsese dá outras duas funções à “A Invenção de Hugo Cabret”. Por se tratar de seu primeiro filme realmente apropriado para o público infantil, trata-se de uma verdadeira aula introdutória de cinema, capaz de suscitar nas crianças uma verdadeira paixão pela sétima arte e reavivar nos adultos um sentimento que pode estar apagado. É um filme sobre o poder da História, com "H" maiúsculo, que está não apenas nos filmes, mas nos livros e nos museus.

Além disso, este é o primeiro filme 3D de Scorsese, e o diretor dá um novo sentido ao uso da tecnologia que, desde “Avatar”, não tinha um representante realmente bom. Mas “bom” é pouco para o que Scorsese faz aqui. Como um verdadeiro apaixonado por cinema, era natural que ele abraçaria forte as possibilidades que o 3D oferece tanto em trazer o filme para "fora" da tela quanto em levar o espectador para "dentro" dela.

No primeiro aspecto, Scorsese, diferente da maioria dos diretores que já usaram o 3D, é bem mais comedido e não "joga" coisas no espectador. Apenas em um ou outro momento algum objeto é apontado num ângulo que o faz "saltar" em nossa direção. O melhor uso, neste sentido, surge no lado lúdico - o focinho do Dobermann que acompanha o guarda interpretado por Sacha Baron Cohen talvez seja o melhor exemplo - e no lado inventivo e experimental, quando Scorsese decide apontar o feixe da projeção de uma sala de cinema a que Hugo leva sua amiga Isabelle (Chloë Moretz) diretamente contra o feixe real, que nos mostra o filme. Scorsese brinca.

Mas é na segunda capacidade do 3D onde Scorsese realmente se esbalda. Ele não só retoma o uso dos magníficos planos-sequências que marcam vários de seus melhores trabalhos, como também explora a profundidade de campo que um plano plongée, por exemplo, oferece e que não ficava tão evidente em seu modo tradicional. Da mesma forma, Scorsese usa o 3D para potencializar as múltiplas camadas dos planos gerais (não visualizamos só frente-meio-fundo, mas o todo em uma profundidade contínua).

Sem falar na própria forma como ele nos permite enxergar "dentro" da tela: logo no começo, quando Hugo observa as pessoas por trás dos relógios da estação de trem, o personagem de Ben Kingsley é enquadrado dentro de um dos números do relógio, meio desfocado, mas o ângulo escolhido por Scorsese e seu fotógrafo Robert Richardson funciona de tal forma que possibilita ao espectador ter o reflexo de esticar o pescoço para olhar lá dentro daquele buraco e reparar no senhor que está sentado lá embaixo.

Em contraponto, que ousadia tomar todo o quadro para exibir "A Chegada do Trem na Estação" dentro de um filme 3D, exatamente com o propósito de mostrar que o "efeito 3D" estava lá desde o início, como um espanto natural do espectador.

É aí onde o 3D assume seu papel narrativo em "Hugo". No momento em que Papa Georges (Kingsley) observa um desenho feito à mão se movimentar no bloco de notas, ao passar as páginas rapidamente como num flipbook, vemos que o desenho se tridimensionaliza - ou seja, é como se a cabeça do autômato fosse real e estivesse se virando para encarar (e assombrar) aquele senhor. Já em outro momento, vemos trechos de "A Viagem à Lua" projetados numa tela e as cenas também estão em 3D - porque, ali, o público é convidado não apenas a experimentar a sensação de quase ser atropelado pelo trem dos irmãos Lumière chegando à estação, mas a efetivamente entrar naquele mundo, a participar daquele sonho, que é o que Méliès queria.

Scorsese conseguiu provocar esse efeito em mim já na sequência pré-título, que na prática poderia funcionar como um curta e eu já sairia feliz do cinema. Ao final do filme, vi que seria muito difícil não amar "Hugo", assim como é difícil não amar Scorsese e, logo, não amar cinema. O filme fala disso também.

A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (Hugo, 2011, EUA). Direção: Martin Scorsese. Roteiro: John Logan (baseado no livro de Brian Selznick). Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Howard Shore. Produção: Johnny Depp, Tim Headington, Graham King, Martin Scorsese. Com: Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ray Winstone, Emily Mortimer, Christopher Lee, Helen McCrory, Michael Stuhlbarg, Frances de la Tour, Richard Griffiths, Jude Law. Distribuição: Paramount Pictures. 126 min
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OSCAR 2012: Os vencedores e o tratado franco-americano

Fazendo valer seu favoritismo, "O Artista" sagrou-se o grande vencedor do Oscar 2012, levando os troféus de Melhor Filme, Melhor Diretor para o francês Michel Hazanavicius, Melhor Ator para Jean Dujardin, Melhor Trilha Sonora e Melhor Figurino. Podemos falar "grande vencedor" pois o longa-metragem faturou três dos principais prêmios da noite. Em números, deu empate com "A Invenção de Hugo Cabret", que era o filme com a maior quantidade de indicações: 11, uma a mais que "O Artista"."Hugo" ganhou como Melhor Fotografia, Direção de Arte, Efeitos Visuais, Edição de Som e Mixagem de Som.

O maior prêmio que Jean Dujardin ganhou ontem à noite.
(Foto: ©A.M.P.A.S.)

Foi uma vitória justa? Sim. Podemos dizer que, sim, "O Artista" mereceu ganhar, pois, independente da força política do nome dos irmãos Weinstein junto à Academia, é um belo filme, que diverte, emociona e ainda faz um comentário sobre Hollywood e sua tendência de sempre priorizar o que é mais novo, o que está na moda, sobre aquilo que se tornou supostamente antiquado (meu texto sobre o filme). 

De certa forma, "A Invenção de Hugo Cabret", filme dirigido por Martin Scorsese, também fala sobre isso e mais: enaltece a história do cinema como um todo e faz um apelo pela preservação de filmes - uma bandeira que Scorsese sempre levantou. E o cineasta faz tudo isso usando a tecnologia 3D. Seria uma ótima oportunidade para a Academia consagrar de vez Scorsese com um segundo Oscar e levantar ainda mais a bola do 3D, que tem sido a salvação dos estúdios. 

A vitória de "Hugo" seria um resultado mais justo, mas "O Artista" foi uma boa escolha em todas as categorias em que venceu - ainda que seja curioso (e estranho) o fato de a Academia ter, pelo segundo ano consecutivo, virado as costas para o cinema americano nas categorias principais, já que, no ano passado, o grande vencedor foi o britânico "O Discurso do Rei". Mais curioso ainda é a disputa deste ano ter ficado polarizada entre "O Artista", um filme francês que se passa em Hollywood, e "Hugo", um filme americano que se passa na França.

Dos demais vencedores do Oscar 2012, temos alguns destaques:

- "A Dama de Ferro" foi o único filme além de "O Artista" e "A Invenção de Hugo Cabret" com mais de uma estatueta, ficando com duas bem previsíveis (Melhor Maquiagem e Melhor Atriz para Meryl Streep, que ganhou o terceiro Oscar de sua carreira);

- "Meia-Noite em Paris" ganhou como Melhor Roteiro Original, rendendo merecidamente a Woody Allen o seu quarto Oscar; 

- Christopher Plummer, aos 82 anos, se tornou o mais velho vencedor de um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por "Toda Forma de Amor", filme lançado direto em DVD no Brasil; 

- "Os Muppets" faturou o prêmio de Melhor Canção, deixando o Brasil novamente sem Oscar, já que Sérgio Mendes e Carlinhos Brown concorriam com uma das músicas da animação "Rio". Não dá nem para dizer que foi justo ou injusto, pois os dois únicos concorrentes da categoria se equiparavam. Mas não custa lembrar que Hollywood adora os Muppets, então, o resultado já era esperado; 

- Por fim, o iraniano "A Separação" ganhou o Oscar de Filme Estrangeiro, com todo mérito e sem nenhuma surpresa. Para nós, brasileiros, de certa forma é ruim, pois significa que dificilmente veremos os demais indicados da categoria nos cinemas brasileiros, e "A Separação" já está em cartaz.

(Foto: Mark Davis – © 2012 WireImage)

Ah! Vale mencionar ainda o retorno de Billy Crystal ao Oscar como anfitrião. A Academia devia fazer um contrato vitalício para ele: o cara realmente se sente em casa apresentando a cerimônia. Uma pena que só mesmo o tradicional número de abertura (montagem de cenas com Crystal inserido + medley com os indicados) tenha se destacado. As demais piadas do ator foram boas, mas não empolgaram a cerimônia que, como um todo, manteve um tom mais sóbrio que o ideal e um ritmo não tão cansativo, mas bem longe de ser animador.


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O Artista


Quando eu soube que "O Artista" era um filme mudo, logo suspeitei de tudo não passar de uma desculpa para usar o formato apenas para fazer um filme à moda antiga nos dias de hoje. Felizmente, não se trata disso.

Michel Hazanavicius já havia demonstrado carinho por um passado cinematográfico com os filmes do Agente 117 (ele dirigiu dois: um em 2006 e outro em 2009, ambos também com os atores Juan Dujardin e Bérénice Bejo; o mais recente inclusive se passa no Brasil, mas não foi lançado aqui). Em "O Artista", ele volta ainda mais no tempo, mas a graça toda do filme é que o cineasta não está só emulando o cinema mudo.

A revelação se dá numa sequência de sonho do protagonista (Dujardin), um astro dos filmes da época, fim dos anos 20, que se vê surpreendido pela decisão dos estúdios em aposentá-lo dado o advento do cinema falado. Até ali, "O Artista" parece mesmo só imitar um filme mudo, mas Hazanavicius usa com inteligência a metalinguagem para mostrar a quê realmente seu filme veio.

Ao mesmo tempo em que é uma homenagem, "O Artista" é um comentário sobre a troca de tecnologias e a sobreposição do mais novo sobre o consagrado.

Primeiro, temos um modo de fazer cinema que é abandonado pelo estúdio e pelo público por uma razão meramente tecnológica e mercadológica (o simples ato de falar, o diálogo "físico", digamos, como fica claro, não é uma necessidade para se narrar um bom filme).

Depois, temos o ator, moeda do estúdio que se desvaloriza com a idade. Ele é substituído pela atriz em ascensão (Bejo), uma oportunista inicial que é vista como "carne nova" pelo chefão do estúdio (John Goodman) por se dar melhor com a fala do que o personagem de Dujardin - embora nunca escutemos o som da voz dela, em mais uma sacada metalinguística de Hazanavicius.

Ou seja, é um filme sobre o som - melhor dizendo, um filme mudo sobre a necessidade da fala. No fim, um filme sobre narrativa.

“O Artista” é, portanto, um filme sobre filmes. Mas, mais que fazer uma homenagem, com direito ao bom humor que conhecemos de Charles Chaplin e Buster Keaton (mais de Chaplin, talvez), ele coloca em perspectiva a evolução do próprio cinema como arte e como negócio. O que serve à transição do filme mudo para o filme falado, cabe ao preto-e-branco para o colorido, à película para o digital, ao 2D para o 3D. Parece filme antigo, mas é atualíssimo.


O ARTISTA (The Artist, 2011, França/Bélgica). Direção: Michel Hazanavicius. Roteiro: Michel Hazanavicius . Fotografia: Guillaume Schiffman. Montagem: Anne-Sophie Bion, Michel Hazanavicius. Música: Ludovic Bource. Produção: Thomas Langmann, Emmanuel Montamat. Com: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle. Distribuição: Paris Filmes. 100 min
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