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INDIE 2010: Dois Irmãos


Não sei de onde saem os cineastas argentinos, mas de onde quer que seja é inegável que recebem uma excelente formação sobre a estrutura narrativa de um filme. Pois impressiona como nossos vizinhos conseguem contar bem uma história. E é mais impressionante ainda como eles conseguem pegar uma storyline que tem tudo para virar um novelão e a transformam em um roteiro profundo e em imagens pertinentes. Isto é, transformam em cinema.

É o caso de "Dois Irmãos", de Daniel Burman. São dois protagonistas, os dois irmãos. Ela, Suzana, é egoísta, dominante, nunca está satisfeita com nada. Ele, Marcos, é apagado, nada confiante, alvo de críticas constantes da irmã. Mas, acima de tudo, são dois solitários. Que precisam um do outro. Ela precisa dele. E ele sabe da necessidade dela, e está sempre a postos.

Não existe nenhuma ousadia em "Dois Irmãos". Nada de original ou mesmo nada provocativo. Mas precisa? Burman parece realmente preocupado em desenvolver uma narrativa, o que faz com primor. Além disso, ele tem uma percepção de enquadramentos e sabe que uma história pode ser contada em imagens. "Dois Irmãos" está longe de ser um filme apenas visual, mas essa percepção faz a diferença. Em um dado momento do longa, a mãe de Suzana e Marcos morre. Suzana nunca se preocupou muito, era Marcos quem cuidava dela. No funeral, onde estão apenas os dois, Suzana questiona o porquê de não haver ninguém na cerimônia. Marcos não se importa. Está triste pela mãe, não quer saber de convenções sociais. A escolha de Burman de enquadrar apenas o rosto de Marcos, que sofre, enquanto Suzana reclama, faz toda a diferença.

Apesar do tema ser outro, “Dois Irmãos”, com sua sensibilidade e discrição, ainda consegue criticar a classe média de forma mais pertinente do que Todd Solondz, atirando para todos os lados em seu “A Vida Durante a Guerra”.

Mas, no fim das contas, Burman, com ajuda de seus ótimos atores, faz um filme sobre a busca da identidade. E, se não reinventou a roda, fez o dever de casa muitíssimo bem feito.

Dois Irmãos (Dos Hermanos, 2010, Argentina/Uruguai/Espanha)
direção: Daniel Burman; roteiro: Daniel Burman, Diego Dubcovsky; fotografia: Hugo Colace; montagem: Pablo Barbieri Carrera; música: Nico Cota; com: Antonio Gasalla, Graciela Borges, Elena Lucena, Rita Cortese. 105 min
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INDIE 2010: A Vida Durante a Guerra


Assistir a "A Vida Durante a Guerra" me deu vontade de rever os filmes anteriores de Todd Solondz. Rever mesmo. Com um novo olhar. Um olhar, talvez, mais maduro. Me lembro de quando vi "Felicidade" e "Histórias Proibidas". Exagero meu, talvez, achei, na época, um trabalho quase genial. Uma crítica pungente e mordaz da classe média americana narrada como poucas. Ao assistir a "A Vida Durante a Guerra" não pude deixar de não me decepcionar.

Não é um filme ruim. Longe disso. Solondz retoma seus personagens de "Felicidade", mas com novos atores, e faz, como sempre, um retrato sagaz, engraçado e exagerado da classe média americana. É impossível não rir de alguns diálogos desconfortávels de "A Vida Durante a Guerra", algo que o diretor sempre fez bem. Solondz não é um artista da imagem. É um artista do texto. Mas não existe frescor neste texto. É uma reunião das já conhecidas críticas da paranóia americana, a obsessão por vencer, o medo e a impossibilidade de ser autêntico. E o fato do filme parecer um monte de esquetes reunidas não ajuda no resultado final.

"A Vida Durante a Guerra" me parece raso, óbvio. Imaturo. Sabe aquela pessoa que tem uma convicção forte em relação a alguma coisa qualquer e tenta passar para frente o que acredita, de forma quase irritante, através de exemplos óbvios, que nunca se aprofundam? É com essa sensação que saí do cinema.

A Vida Durante a Guerra (Life During Wartime, EUA, 2010)
direção: Todd Solondz; roteiro: Todd Solondz; fotografia: Edward Lachman; montagem: Kevin Messman; música: Doug Bernheim; com: Ally Sheedy , Shirley Henderson, Michael K. Williams, Allison Janney, Michael Lerner, Dylan Riley Snyder, Ciarán Hinds, Renée Taylor, Paul Reubens, Charlotte Rampling. 98 min
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INDIE 2010: Caterpillar


"Caterpillar" é um filme que incomoda nas imagens. Mas sua narrativa está longe de chamar tanta atenção. Incomoda por mostrar algo que evitamos ver, pois nós, humanos, não temos muito estômago para deficiências físicas. O filme segue uma mulher cujo marido volta da guerra. Ele retorna sem os braços, as pernas, com uma queimadura na cabeça, surdo e mudo. É tratado como um herói e passa a ser visto como o "Deus da Guerra". A esposa, que parece não suportar a situação, é pressionada a ficar sempre ao seu lado, tanto por seu papel como mulher na sociedade japonesa da época quanto pelo fato do jovem ser o novo herói da comunidade.

É interessante ver em "Caterpillar" a diferença entre a vida pública e vida privada do casal. Fora de casa, o guerreiro é admirado e a mulher, apesar de pressionada, é vista como um exemplo para toda as outras esposas da guerra. Dentro de casa ele só transa, come, dorme e faz as necessidades físicas. Talvez porque o sexo seja a única forma de se comunicar ou, também, porque sem os membros sai do "estado humano" e entre em um "estado animal". Afinal, a tradução de "Caterpillar" é "larva", a larva que se transforma em uma borboleta. No caso do jovem, o caminho foi inverso.

As cenas de sexo - que são muitas - incomodam. Não só pela condição física do marido, mas por a esposa satisfazê-lo sem a menor vontade. Logo descobrimos que este Deus da Guerra não é um indivíduo exemplar. E, acima de tudo, não é um caterpillar. Afinal tem consciência, tem sentimentos.

Mas a grande importância do filme é a esposa. O processo pelo qual ela passa durante todo o longa, de devoção ao marido, mesmo que de forma obrigatória, à humilhação ao homem que um dia abusou dela e que hoje não pode fazer mais nada, apesar de interessante é, às vezes, um pouco forçada e um pouco "já vi isso antes" demais. Em uma estante do lar do casal, estão dispostas as medalhas que ele recebeu e uma notícia de jornal emoldurada que enaltece os feitos do ex-soldado. É claro que terá uma cena na qual a esposa, ao explodir, destrói e quebra todas essas lembranças de que seu marido é, agora, um herói, um "Deus da Guerra". Aliás, dá para entender porque a atriz ganhou o prêmio no Festival de Berlim. Ela expressa todos os tipos de sentimentos imagináveis durante a 1 hora e 25 minutos de filme. Sabe quando alguém quer mostrar como os sentimentos são contraditórios e, em uma cena, a personagem troca de um para o outro como se estivesse trocando de sapato? Então.

Há ainda, no longa, uma crítica sobre como a sociedade em guerra forma seus membros. Apesar de pertinente e atual, é tratada de forma óbvia. Aliás, este é um problema constante em "Caterpillar". Apesar do começo promissor, a falta de personalidade da narrativa compromete o restante do filme.

Caterpillar (2010, Japão)
direção: Koji Wakamatsu; roteiro: Hisako Kurosawa, Deru Deguchi; fotografia: Tomohiko Tsuji, Yoshihisa Toda; montagem: Shuichi Kakesu; música: Sally Kubota, Yumi Okada; com: Shinobu Terajima, Shima Ohnish, Ken Yoshizawa, Keigo Kasuya, Emi Masuda. 85 min
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ÁUDIO VISUAL: INDIE 2010


A 10ª edição do INDIE - Mostra de Cinema Mundial - traz ao Brasil duas retrospectivas inéditas e exclusivas, com os filmes de Kiyoshi Kurosawa e Apichatpong Weerasethakul. Eu conversei com uma das curadoras do festival, Francesca Azzi, sobre esses dois cineastas e as demais atrações do INDIE 2010, bem como a estreia da casa nova da mostra: o Belas Artes, em Belo Horizonte.


Áudio Visual é meu quadro de cinema, no ar na Rádio Inconfidência desde junho de 2009. São duas edições semanais: inéditas toda quarta e sexta-feira, dentro do Conexão Inconfidência (de 12h às 14h); reprises na Revista da Tarde (quinta, de 14h às 16h), no Em Boa Companhia (sexta, de 8h às 11h), no Radiografia (sábado, de 12h às 14h) e no Amigos da Madrugada (quarta e sexta-feira, às 0h).
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INDIE 2010: destaques da programação


O pôster oficial do INDIE 2010, by Voltz Design,
que virá encartado no catálogo - clique para ampliar

Sem dúvidas, os grandes destaques da programação do INDIE 2010 são as duas retrospectivas, ambas inéditas no Brasil e exclusivas do festival.

Primeiro, temos o já anunciado programa com a obra de Kiyoshi Kurosawa, que levará às telas da mostra 23 filmes deste cineasta japonês, cultuado por seu cinema de horror e por um dos grandes filmes dos últimos cinco anos, "Sonata de Tóquio", que ainda permanece inédito em circuito comercial no Brasil.

E agora a organização do INDIE anuncia a retrospectiva Apichatpong Weerasethakul, ou "Joe" para simplificar. Ele mesmo, o vencedor da Palma de Ouro deste ano. Uma pena que o filme que ganhou Cannes, "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives", não virá para o INDIE (pelo menos, até segunda ordem - vai que pinta uma surpresa?). Mas mesmo assim será uma chance única para o público conhecer a obra deste cineasta tailandês, que ainda não teve um filme sequer lançado comercialmente por aqui. A seleção dos cinco longas e 20 curtas que será apresentada no festival foi feita pelo próprio diretor para o INDIE. Sensacional.

Confira os demais destaques da programação, divulgados hoje. A lista completa dos filmes com os dias e os horários estará disponível no site oficial do INDIE a partir do próximo dia 26.

O INDIE 2010 acontece de 2 a 9 de setembro em Belo Horizonte e de 16 a 23 de setembro em São Paulo.

MOSTRA MUNDIAL > 24 filmes, 12 países, 22 estreias O programa faz um mix de diretores consagrados, novos diretores e as novas tendências do cinema. Entre os consagrados: Hong Sang-Soo ( com “Hahaha”, prêmio do júri na mostra Un Certain Regard, em Cannes 2010); Koji Wakamatsu com “Caterpillar” (competiu no festival de Berlim 2010); o último filme de Clare Denis, “White Material”; e Todd Solondz (os personagens de Happiness, 12 anos depois, em “A Vida Durante a Guerra”).

Foco também para o cinema romeno com destaque para “Terça-feira, Depois do Natal” (participante da seleção oficial da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes) e no novo cinema indie americano: “Mobília Mínima”, prêmio de Melhor Filme de Ficção no festival americano SXSW, dirigido Lena Dunham; “Alguns Dias São Melhores que Outros” de Matt McCormick que participou dos festivais de SXSW e Seattle; e “Amor e Ódio”, de Bryan Poyser, que estava na competitiva do Sundance deste ano.

RETROSPECTIVA KIYOSHI KUROSAWA > 23 filmes (22 deles, em 35mm). Os vários estilos e gêneros da obra de Kurosawa. Nascido em 19 de julho de 1955, em Kobe, na província de Hyogo, no Japão, Kurosawa começou a dirigir filmes independentes em 8mm quando estudava Ciências Sociais na Universidade Rikkyo. Kurosawa passou os anos seguintes aprendendo com os diretores Kazuhiko Hasegawa e Shinji Somai. Estreou comercialmente, em 1983, com o longa-metragem “Guerras De Kandagawa” um legítimo pinku eiga (os pornôs leves japoneses). A restrospectiva exibe também as séries sobre detetives e Yakuza feitas para a televisão nos anos 1990; além dos filmes que o consagraram como "Cure" (Prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cinema de Yokohama, 1999); "Charisma" (Quinzena dos Realizadores, em Cannes 1999), “Permissão para Viver” (Fórum do Festival de Berlim, 1999); “Ilusões Inúteis” (Mostra Internacional de Veneza, de 1999), "Pulse" (Prêmio da Crítica na mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes 2001), “Futuro Brilhante” (competitiva do Festival de Cannes 2003); até “Sonata de Tóquio”( prêmio do júri na mostra Un Certain Regard, em Cannes 2008).

RETROSPECTIVA APICHATPONG WEERASETHAKUL > 25 filmes (5 longas, 1 média-metragem, 19 curtas). Nascido em Bangcoc, na Tailândia, em 1970, Apichatpong realiza instalações, obras conceituais, premiado diretor de cinema, é um dos grandes expoentes do cinema mundial. Formou-se em Arquitetura pela Universidade de Khon Kaen em 1994, cidade onde seus pais médicos trabalhavam num hospital. Mas foi nos EUA que estudou cinema, no Art Institute of Chicago, concluindo seu mestrado em 1997. Em 1999, ele fundou sua produtora Kick the Machine e começou a produzir seus próprios projetos e a dar apoio para outros artistas experimentais e independentes na Tailândia. Recebeu a Palmo de Ouro em Cannes 2010. O Indie exibirá seus longas: “Objeto Misterioso ao Meio-Dia” (2000), “Eternamente Sua” (premiado na mostra Um Certain Regard, Cannes, 2002), “As Aventuras de Iron Pussy” (2003), ”Mal dos Trópicos” (prêmio do júri em Cannes 2004), e “Síndromes e um Século” (concorrente na Mostra de Veneza 2006). A retrospectiva trará também quatro programas de curtas, com 20 filmes, selecionados pelo diretor especialmente para o Indie e inédita no país. Dentre os curtas estão os seus trabalhos mais recentes: “Uma Carta para Tio Boonmee” (2009), “Mobile Men” (filme-segmento que faz parte do longa Stories on Human Rights, 2008) e “Pessoas Luminosas” (também um filme-segmento do longa O Estado do Mundo, 2007), além de outros completamente inéditos no país.

INDIE BRASIL > 5 filmes brasileiros. O programa apresenta os documentários “Leite e Ferro”, de Claudia Priscilla (melhor direção e melhor documentário no Festival de Paulínia); “Meu Amigo Claudia”sobre a artista e travesti Claudia Wonder; além de filmes de novos diretores fora do eixo: “Pacific”do pernambucano Marcelo Pedroso e “Viagem para Ythaca”direção coletiva produzida no Ceará. Traz também a estreia na cidade do filme da mineira Marilia Rocha “A Falta que me Faz” .

MÚSICA DO UNDERGROUND > O programa exibe sete documentários sobre música. Destaque para “Nós Não Ligamos Mesmo Para Música”sobre a música de vanguarda feita em Tóquio, o filme participou de vários festivais tais como SXSW, BAFICI, Cinéma du réel, Singapore. E mais “ManOoman”, o impressionante e sensual movimento dancehall na Jamaica; como é ser punk na China (em “Beijing Punk”) e a luta do músico Pat Spurgeon, da banda pop indie Rogue Wave, por um transplante de rim em “D-Tour”. E a amizade vivida na estrada dos amigos músicos Devendra Banhart, Joanna Newsom e Kevin Barker (da banda Vetiver) em “Family Jam”.

CINEMA DE GARAGEM – Trinta e cinco novos realizadores brasileiros, de 10 estados, estão no programa que tem curadoria do videoartista Dellani Lima. O cinema feito sem orçamento nenhum, ou com pequenos incentivos, de forma autoral e inventiva. Dividido em 6 programas traz a diversidade da produção nacional: da geração da videoarte (Kika Nicolela, CarlosMagno Rodrigues), do curta-metragem (Rodrigo Grota, Sávio Leite) até os filmes B do catarinense Petter Baiestorf.
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