Mostrando postagens com marcador cannes 2009. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cannes 2009. Mostrar todas as postagens

Bastardos Inglórios


Armas são comuns nos filmes de Quentin Tarantino. Agora, que o cineasta fez seu primeiro filme de guerra, então, elas não poderiam faltar. Mas o que mais chama a atenção em “Bastardos Inglórios” é que o próprio filme é usado como arma por seu diretor.

Se fosse possível acabar com a Segunda Guerra Mundial através do cinema, “Bastardos Inglórios” certamente seria uma estratégia ideal (e das mais originais) para colocar um fim ao nazismo. O explosivo novo trabalho de Tarantino toma a liberdade para reescrever os livros de História e reimagina o cinema como arma – ideia adotada pelos soviéticos e pelos próprios nazistas através da propaganda e por diretores europeus e brasileiros que empunharam seus ideais políticos durante a Nouvelle Vague e o Cinema Novo. No caso de Tarantino, no entanto, o jogo é aberto, nada sutil, e está mais preocupado em mostrar a força da expressão artística de seu autor – que esbanja na tela o humor mórbido já conhecido desde “Cães de Aluguel”.

Marcas dos filmes de Tarantino estão espalhadas por todos os lugares em “Bastardos Inglórios”. A primeira, e mais óbvia, é a vingança, novamente personificada numa figura feminina – no caso a jovem francesa e judia Shosanna Dreyfus, interpretada por Mélanie Laurent que, num dos atos de transgressão do filme, rouba de Brad Pitt – chamariz absoluto do público recorde da carreira de Tarantino – o posto de protagonista. O ator, que nos trailers dava a impressão de liderar uma narrativa que na verdade corre apenas paralela à trama de Shosanna (não se preocupe em contar os escalpos nazistas colecionados pelo bando do tenente Aldo Raine), coloca à prova, mais uma vez, seu lado comediante e, mais uma vez, se sai muito bem. Só não tem mais espaço porque Tarantino parece ter gostado mais de brincar com o vilão, o coronel nazista Hans Landa, que parece ter crescido ainda mais em frente à câmera na atuação marcante de Christoph Waltz (premiado em Cannes por esse trabalho).

Também está na tela a famosa cena do mexican stand-off – que é aquele momento em que duas ou várias pessoas sacam suas armas e apontam uma para a outra ao mesmo tempo. Aqui, o mexican stand-off toma uma proporção numerosa na cena da taberna, uma das sequências mais tensas do longa, e também uma das mais surpreendentes pela facilidade com que Tarantino constrói e desconstrói o filme através do poder narrativo. Ele praticamente conclui ali uma célula dramática que tem vida própria, sem deixar de ser orgânica para a história como um todo. Só é uma pena que ele se despoje nessa sequência de um dos personagens mais interessantes, que acaba não tendo tempo de tela suficiente apesar de ser anunciado com alarde.

Violência, podolatria, falas memoráveis, citação a outros filmes em diálogos e na mise-en-scène, trilha sonora também repleta de referências e homenagens (especialmente a Ennio Morricone), divisão da história em capítulos, participações especiais de amigos (Julie Dreyfuss, Samuel L. Jackson, Harvey Keitel – esses dois últimos apenas com a voz), resgate de atores em decadência (desta vez é Mike Myers, mas seu papel não tem qualquer relevância, podendo ter sido feito por qualquer outro ator), pausas para flashbacks. Está tudo lá, como em todo filme do diretor. Mesmo assim, temos aqui um Tarantino mais contido no estilo, menos palhaço, ainda que o humor esteja presente em vários lugares. O mais importante ele mantém: a excelência no manuseio da câmera e no ritmo dos cortes (com o auxílio imprescindível de sua montadora de longa data, Sally Menke). É um serviço de carpintaria que ele parece refinar a cada filme, seja qual for o gênero em que trabalhe.

“Bastardos Inglórios” não é um filme exploitation como “Kill Bill” ou “À Prova de Morte”, mas também não é um filme de guerra sério, como os que são tradicionalmente feitos. Tarantino busca uma narrativa mais centrada na construção dos diálogos e menos na ação, talvez numa opção de se aproximar do cinema europeu. A primazia na arquitetura dos discursos de seus personagens impressiona (e é uma ótima ironia ver um senhor da palavra fazer questão de grafar o título do filme da forma errada, enfiando uma vogal a mais em “inglorious” e trocando outra em “bastards”). Porém, as cenas faladas algumas vezes dão a impressão de durarem tempo demais, e não oferecem punch-lines ou referências à cultura pop como nos acostumamos a encontrar na obra do cineasta. É, de toda forma, um sinal de que ele procurou não fazer mais do mesmo, ainda que esse mesmo não seja drenado por completo, felizmente.

Se esta é ou não é a obra-prima de Tarantino é uma questão subjetiva, mas é inegável que “Bastardos Inglórios” é uma visão bastante peculiar da terra sem lei em que se transforma qualquer guerra.

nota: 9/10 -- veja no cinema e compre o DVD

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009, EUA/Alemanha)
direção: Quentin Tarantino; roteiro: Quentin Tarantino; fotografia: Robert Richardson; montagem: Sally Menke; produção: Lawrence Bender; com: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Brühl, Til Schweiger, Gedeon Burkhard, Jacky Ido, B.J. Novak, Omar Doom, August Diehl, Denis Menochet, Sylvester Groth, Martin Wuttke, Mike Myers, Julie Dreyfus; estúdio: Universal Pictures, The Weinstein Company, A Band Apart, Zehnte Babelsberg, Visiona Romantica; distribuição: Universal Pictures. 153 min
LEIA MAIS

Anticristo


“Anticristo” não é apenas um filme. É um escândalo. Se desde o início da carreira, com o alegórico policial “O Elemento do Crime” (1982), Lars von Trier demonstra uma tendência para lançar desafios aos bons costumes – sociais, morais e cinematográficos – ele encontra no gênero horror a tela perfeita para expor suas ideias. Ou talvez seja apenas a vitrine mais iluminada onde o cineasta se coloca em exposição.

“Ambíguo” possivelmente é o termo mais apropriado para definir “Anticristo”. Se durante toda a projeção os personagens de Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg lidam com dualidades como o bem e o mal, a culpa e o prazer, a morte e a vida, o carinho e a violência, o cristianismo e o paganismo, o resultado de cada um desses embates não fica claro e o espectador pode sair do cinema com mais dúvidas do que certezas.

O que é bom por um lado, pois torna “Anticristo” um daqueles filmes que vão para casa com você e instigam o pensamento e o debate. Por outro, a ambiguidade deixa no ar as reais intenções de von Trier, que hora parece estar assinando um atestado de misoginia que atribui à mulher a desgraça do homem. O psicanalista despe progressivamente a esposa de seus traumas até chegar ao verdadeiro eu da parceira, demoníaco e maligno – ela é o anticristo, que leva o homem ao pecado original; ela o atrai para transar sob a “árvore do conhecimento”. É algo que o diretor sinaliza na própria grafia do título, que exibe o símbolo de Vênus no lugar do “T” (o que, vindo de von Trier, não pode não ser visto como provocação). Cabe ainda ressaltar o paralelo temático com o mito de Medéia, assassina dos próprios filhos na versão de Eurípedes, que o próprio von Trier filmou, em 1988, com diálogos que parecem ter sido adaptados diretamente para este mais recente trabalho.

Mas, ao mesmo tempo, o cineasta dá a entender que o longa não passa de um conto carregado de simbolismos e papo psicológico sobre a abnegação do ser humano à irracionalidade da natureza. Por exemplo, as várias tomadas que destacam tragédias com que convivem a vegetação (o zoom no vaso de plantas no quarto do hospital) e os animais (o filhote de pássaro devorado por formigas e depois canibalizado por outro da mesma espécie). A floresta, o Éden, seria o ambiente onde a lógica não tem vez e o caos reina. E ao levar a esposa a se fundir com essa natureza, habitada por outras mães de crias mortas, o marido se torna o responsável por libertar a crueldade inerente ao homem (já dizia Hobbes).

Existem elementos de sobra na tela que corroboram para todo tipo de leitura, cabendo a cada espectador encontrar sua própria interpretação). Mas se há de ser feita uma análise do filme do ponto de vista estético, o que tenho a dizer é que von Trier se sai muito bem na criação de genuínas imagens de cinema – que é a busca mais sincera que se percebe em todos os seus filmes. Desde o uso da câmera lenta e do preto-e-branco no suntuoso prólogo (narrado em evidente tom sarcástico) até a composição de cenas que parecem mais próprias da pintura, este é provavelmente um dos trabalhos plásticos mais bonitos do cineasta dinamarquês (me lembrou “Europa”, 1991, em alguns momentos).

Tal beleza entra em conflito direto com a repulsa que ele causa ao inserir sequências de extrema violência entre o casal protagonista. É onde “Anticristo” decepciona como filme de horror, pois a angústia que von Trier provoca corre pela via do choque, e não por aquela que procura instigar o medo – sentimento este que fica reservado aos personagens e, ao que parece, ao obscuro íntimo do diretor.

nota: 6/10 -- vale o ingresso

Anticristo (Antichrist, 2009, Dinamarca/Alemanha/França/Suécia/Itália/ Polônia)
direção: Lars von Trier; roteiro: Lars von Trier; fotografia: Anthony Dod Mantle; montagem: Anders Refn, Åsa Mossberg; produção: Meta Louise Foldager; com: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg; estúdio: Zentropa Entertainments, arte France Cinéma, ZDF/Arte; distribuição: Califórnia Filmes. 109 min
LEIA MAIS

À Deriva


Há um momento na vida de todo mundo, geralmente na adolescência, em que a brincadeira da “verdade ou consequência” acaba acontecendo. Forma-se uma roda com os amigos, coloca-se a garrafa no meio, gira-se a garrafa e, quando ela pára, é a chance de fazer, ou ouvir, uma declaração que permaneceria secreta em circunstâncias comuns. A protagonista de “À Deriva” é Filipa, uma garota de 14 anos de idade que participa de um jogo da garrafa em certo momento do filme, mas podemos ver essa cena como representação da fase que a jovem atravessa. Porém, as verdades (e mentiras) que ela descobre não surgem como opção.

O longa representa um rompimento na obra que Heitor Dhalia vem construindo. Diferente do sarcasmo e do tom contestatório que marcam seus dois primeiros filmes, “Nina” e “O Cheiro do Ralo”, o cineasta pernambucano parte claramente em busca de um público mais amplo neste terceiro trabalho, contando uma história com a qual certamente mais pessoas irão se identificar. Afinal, traição é tema dos mais antigos. Mas o que a princípio surge como lugar-comum ganha dimensões afetuosas nas mãos de Dhalia, que sabe narrar o filme sem cair no melodrama.

Uma das decisões acertadas do diretor é justamente jogar o foco em Filipa, papel de Laura Neiva, atriz estreante que, segundo os produtores, foi descoberta através do site de relacionamentos Orkut. Uma bela revelação, a garota consegue dar à personagem as características exatas de uma adolescente em transição, que está deixando o lado menina para trás e se tornando uma mulher – um momento, em particular, em que a garota faz um “passeio de barco”, é filmado por Dhalia de forma a ganhar um ar quase mitológico na representação do rito de passagem. É de uma beleza estética e poética, que favorece a rima com que Dhalia finaliza a narrativa (embora a última tomada, da árvore, tenha uma certa representação bíblica que não sei bem se era necessária).

Neste conto de amadurecimento – que dialoga diretamente com o filme neozelandês “Chuva de Verão”, de Christine Jeffs, lançado em 2001 – Dhalia estabelece uma dinâmica das mais interessantes entre os filhos e os pais daquela família que passa por um período difícil. Se os garotos se comportam como as crianças que são de fato, brincando, correndo na praia e dançando, os pais também se apresentam como tal, fazendo joguinhos diante dos amigos e dos próprios filhos para esconder a real situação que estão vivendo.

Os pais – interpretados por Débora Bloch e pelo francês Vincent Cassel – demonstram atitudes infantis incompatíveis com o perfil de um casal que deveria dar o exemplo e assumir as responsabilidades de cuidar de uma família com três filhos. Já Filipa está em um período natural da vida, aprendendo a lidar com sentimentos inéditos e se dando ao direito de deixar desnorteado o garoto “galinha” que só quer “ficar” com todas as garotas da praia. E quem somos nós, homens, para discutir com as meninas nessa idade, não é mesmo? Aliás, é na relação de Filipa com seu pretendente que o filme delineia de maneira formidável a força feminina que a garota também começa a descobrir e a exercer sobre o sexo oposto.

Com esse apelo universal, “À Deriva” se beneficia ainda da bela paisagem de Búzios, que cintila na fotografia de Ricardo Della Rosa (“Casa de Areia”, “O Passado”). É no cuidado visual, aliás, que Dhalia mais se aproxima de seus filmes anteriores: apesar de a direção de arte não ser estilizada como antes, apresentando-se em tons bem mais naturais, a câmera continua a serviço pleno da tela grande, sendo difícil imaginar que num televisor as imagens se apresentem tão bonitas.

nota: 7/10 -- vale o ingresso

À Deriva (2009, Brasil)
direção: Heitor Dhalia; roteiro: Heitor Dhalia; fotografia: Ricardo Della Rosa; montagem: Gustavo Giani; música: Antonio Pinto; produção: Fernando Meirelles, Andrea Barata Ribeiro, Bel Berlinck; com: Laura Neiva, Vincent Cassel, Débora Bloch, Camilla Belle, Izadora Armelin, Max Huszar, Maysa Miranda, Thomas Huszar, Josefina Schiller, Gabriela Flarys, Gregorio Duvivier, Cauã Reymond; estúdio: O2 Filmes; distribuição: Universal Pictures. 101 min
LEIA MAIS

Resumão Cannes 2009


"A Fita Branca", de Michael Haneke

Finda a 62ª edição de Cannes, é hora de fazer um balanço dos filmes que foram destaque entre os críticos e que, possivelmente, veremos no Brasil entre setembro e outubro, no Festival do Rio, na Mostra INDIE e na Mostra de São Paulo. Ao contrário daqueles que sempre dizem que "esta é pior seleção de Cannes dos últimos anos", temos um cardápio no mínimo promissor pela frente.

O que segue abaixo é uma compilação dos links que alimentaram a nossa Parabólica durante o festival. Aqueles filmes que já tem previsão de estreia no Brasil possuem essa indicação:

- "A Fita Branca" (competição, Palma de Ouro) - Que Haneke entregaria um filme poderoso, já era esperado. Mas parece que estamos diante de sua obra-prima. "Quando está no auge da forma, o talento artístico de Michael Haneke e o infalível controle sobre seu material são difíceis de bater." "É uma horrorizante descrição da mortalidade." "Um surpreendente e comovente estudo forense sobre o colapso social." Caramba! A Imovision ainda não tem a previsão de estreia no Brasil, mas podemos esperar para o segundo semestre. O filme também ganhou o prêmio da FIPRESCI.

- "Les Herbes Folles" (competição, Prêmio Especial do Júri) - O novo Resnais foi considerado o melhor filme da competição logo quando foi exibido. Disseram: "O filme é um sopro de vida não apenas no festival, mas no próprio cinema." "É mais exuberante do que 'Medos Privados em Lugares Públicos." "Soa como um resumo das melhores coisas da obra de Resnais." Depois de tanto carinho, só nos resta esperar pelo filme. Ainda sem previsão, mas já comprado pela Imovision (que tem o título provisório em português: "As Ervas Daninhas").

- "Anticristo" (competição, Melhor Atriz) - Para o bem e para o mal, foi considerado o filme-escândalo do festival. De "obra-prima" a "desastre", a crítica se divide. Mas de qualquer forma parece mesmo imperdível. Previsão de estreia: agosto (Califórnia Filmes, que promete trazer a "versão original do diretor" - presumimos que seja a mesma de Cannes, mas nunca se sabe).

- "Un Prophète" (competição, Grande Prêmio do Júri) - O filme de Jacques Audiard, apesar de "convencional", chamou a atenção e teve a ovação mais longa do festival (cerca de 10 minutos). Disseram: "Equilibra com sucesso o estilo de um filme de arte com um enredo de filme de gângster."

- "Kinatay" (competição, Melhor Direção) - Se "Anticristo" causou sensações extremas, também o fez o filme de Brillante Mendoza. Foi considerado por Roger Ebert o novo pior filme da história do festival, mas ganhou muitos defensores, "graças ao prazer que nega ao espectador".

- "Enter the Void" (competição) - Novo longa de Gaspar Noé pode não ter impressionado o júri, mas causou celeuma na Croisette, sendo considerado "o único filme de vanguarda na competição". Muito disso se deve à fotografia e ao trabalho de câmera. E se você se lembra da homenagem a Kubrick numa das última cenas de "Irreversível", certamente vai encontrar mais delas aqui. "Quase desafiando a definição de termos cinematográficos contemporâneos, o filme é um selvagem, alucinatório 'mindfuck' para adultos, que mostra seu diretor explorando novas técnicas de filmagem e ambiciosos efeitos especiais para capturar a viagem de um jovem após a morte."

- "Tetro" (Quinzena dos Realizadores) - Disseram que o filme vislumbra a era de ouro de Coppola e é bem melhor do que "Youth Without Youth". É tudo que precisamos saber.

- "Bastardos Inglórios" (competição, Melhor Ator) - Não houve consenso quanto ao novo Tarantino, mas parece notório que o cineasta não fez um filme tão consistente quanto os anteriores. Curiosamente, vários críticos usaram de ambiguidade: "Consegue ser indolente e superexcitado ao mesmo tempo," ou "É o filme mais tedioso de Cannes este ano, e também o mais fascinante, o mais impessoal ao mesmo tempo que é pessoal." Também chamou a atenção o uso de referências ao cinema europeu por parte de Tarantino. Previsão de estreia: 23 de outubro (Universal).

- "À Procura de Eric" (competição) - Apesar de ter saído sem prêmios, a surpresa do festival foi o tom leve do novo Ken Loach. O cineasta britânico teve uma calorosa recepção e chamaram o filme até de "crowd-pleaser" - convenhamos, termo que não se espera de um diretor de obra sisuda. O ex-jogador de futebol Eric Cantona está no elenco e foi quem deu a ideia do enredo. Considere-nos oficialmente curiosos. Previsão de estreia: dezembro (Califórnia Filmes).

- "The Time That Remains" (competição) - Outro que saiu sem nada, mas que ganhou muitos elogios da crítica é este trabalho de Elia Suleiman, uma comédia israelense de humor amargo. A Imovision vai lançar o filme no Brasil, mas ainda não tem data.

- "Fish Tank" (competição, Prêmio do Júri) - Dirigido pela britânica Andrea Arnold (do ótimo "Marcas da Vida"), é comparado a "Aos Treze" e elogiado pela fotografia, atuações e olhar consciente sobre questão social. Porém, parece pecar pela originalidade.

- "Thirst" (competição, Prêmio do Júri) - Park Chan-wook não foi unanimidade (nunca é). Mas parece ter agradado mais do que o normal. Kleber Mendonça Filho escreveu: "Dono de um humor terrível, e lançando mão de todos os efeitos especiais que a sua imaginação põe para excelente uso, cria um senso constante de demência que desconcerta a platéia durante toda a projeção." O filme ainda não previsão de estreia por aqui, mas já foi comprado pela Paris Filmes.

- "Bright Star" (competição) - Jane Campion parece ter feito finalmente um filme à altura de "O Piano", no sentido de chances em premiações. Apesar de não ter ganhado nada em Cannes (deve se sair melhor no BAFTA), surgiu como um dos primeiros favoritos à Palma de Ouro. Disseram: "Felizmente, o filme é livre da histeria geralmente associada a filmes sobre escritores e evita as tendências distrativas que infestam filmes de época britânicos."

- "Dogtooth" (Un Certain Regard, Melhor Filme) - O segundo filme do grego Yorgos Lanthimos chamou a atenção pelas vias do choque. "Se você viu a cena do jantar de família de 'O Massacre da Serra Elétrica' e se perguntou: 'Como eles chegaram a esse ponto?', 'Dogtooth' oferece algumas respostas."

- "Police, Adjective" (Un Certain Regard) - Novo filme de Corneliu Porumboiu ("À Leste de Bucareste") chamou a atenção na mostra paralela e levou prêmio. Já foi comprado pela Imovision para distribuição no Brasil, mas ainda não tem previsão de lançamento.

- "Mother" (Un Certain Regard) - Comentaram que o novo filme de Bong Joon-ho deveria estar na competição. Disseram que é "um melodrama lírico", que tem algo de Pedro Almodóvar. "Bong Joon-ho está fazendo os filmes que Hollywood deveria estar fazendo - formalmente precisos e inventivos, sutilmente engajados, mas sem nunca subverter gêneros populares."

- "Tales from the Golden Age" (Un Certain Regard) - Parece que enfim fizeram uma antologia consistente em todos seus episódios. O filme é escrito por Cristian Mungiu ("4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias") e dirigido por cinco cineastas romenos. Remonta episódios da época em que Nicolai Ceausescu governava o país. ATUALIZAÇÃO: A Imovision anunciou a compra do filme, mas ainda não tem previsão de estreia.

- "I Killed My Mother" (Quinzena dos Realizadores, Melhor Filme) - O filme do canadense Xavier Dolan dividiu opiniões, mas parece ter se saído tão bem no festival porque "reflete uma verdade sobre relações humanas que qualquer espectador pode reconhecer."

- "Like You Know It All" (Quinzena dos Realizadores) - Novo Hong Sang-soo foi bem recebido, apesar de parecer ser um trabalho mais "fácil" do cineasta sul-coreano.

- "Ajami" (Quinzena dos Realizadores) - O filme que encerrou a Quinzena foi visto como "poderoso", "incrivelmente autêntico" e "filmado com precisão."

- "Collin" (fora de competição) - Um achado no mercado do festival, é um filme britânico de horror feito por meras 45 libras estelinas. É sobre um homem que tenta entender porque ele se transformou em um morto-vivo.

- "Father of My Children" (Un Certain Regard) - Segundo filme de Mia Hansen-Love arrancou elogios. Ao que parece, é de arrancar lágrimas.

- "Tsar" (Un Certain Regard) - Eisenstein, Tarkovsky e Sokurov são citados enquanto três críticos comentam o trabalho do cineasta russo Pavel Lungin.

- "Eyes Wide Open" (Un Certain Regard) - Um romance homossexual entre um açougueiro judeu e seu ajudante, com uma direção "impressivamente estudada" e uma "qualidade empírica, até mesmo antropológica". Uau.

- "Hierro" (Semana da Crítica) - Da Espanha, vem mais um filme de suspense da safra Guillermo del Toro. "Embora não seja isento de problemas, é absolutamente deslumbrante de se assistir do começo ao fim."

- "Up - Altas Aventuras" (fora de competição) - Alguns críticos chegaram a considerar o filme da Pixar o melhor do ano até agora. Será mesmo para tanto ou o pessoal ainda está seguindo no vácuo de "WALL•E"? Previsão de estreia: 04/09 (Disney)

- "A Town Called Panic" (fora de competição) - "Up" não foi a única animação a ganhar elogios no festival. "Imagine a franquia 'Toy Story' acrescida da sensibilidade perversa de 'South Park' e feita com uma meticulosa técnica de stop-motion."

- "The Imaginarium of Doctor Parnassus" (fora de competição) - O filme encantou pelo visual, mas como tem ocorrido com os últimos trabalhos de Terry Gilliam parece não convencer pela história. Pode ser que agrade somente os fãs do cineasta.

- "Visage" (competição) - O novo Tsai Ming-Liang também parece agradar somente os fãs "hardcore" do cineasta.

E agora, as decepções:

- "Los Abrazos Rotos" (competição) - Parece consenso entre os críticos que o novo Almodóvar é uma repetição de estilo do cineasta. "O diretor parece estar confinado nele mesmo." Previsão de estreia: 20 de novembro (Universal).

- "Vengeance" (competição) - Johnnie To entregou o visual caprichado de sempre, mas os críticos não parecem ter sido cativados pela história. Talvez seja um sinal de problema quando os mesmos adjetivos começam a se repetir em textos diferentes.

- "Taking Woodstock" (competição) - O novo Ang Lee "parece um esquete de duas horas do 'Saturday Night Live', e nem é dos melhores." Não pára aí: "Agradável em algumas partes, mas meramente insípido em outras. Parece uma digressão menor de Ang Lee entre trabalhos mais memoráveis." Ouch. No entanto, Luiz Carlos Merten seguiu aqueles que aderiram à proposta mais leve do cineasta (previsão de estreia: 18/09 (Universal).

- "Agora" (competição) - Novo trabalho de Alejandro Amenabar não empolgou, apesar de elogiado por seu visual, típico de um épico de Cecil B. Demille. Mas teve gente que gostou.

- "Maps of the Sounds of Tokyo" (competição) - Talvez o filme de pior recepção entre os concorrentes à Palma de Ouro, o novo filme de Isabel Coixet foi considerado por muitos "bonito de se olhar", mas inócuo. "É brilhante e vazio como uma bolsa de mão Prada em uma prateleira de botique."

- "Don't Look Back" (fora de competição) - Mesmo com Monica Bellucci e Sophie Marceau, parece ser um David Lynch que não deu certo. Uma pena, visto que o filme anterior da diretora Marina de Van, "In My Skin", é muito bom.

BRASIL EM CANNES

"À Deriva", como você provavelmente já sabe, recebeu ovação de quase 5 minutos em sua sessão de gala na Un Certain Regard. Foi bem recebido de uma forma geral, mas recebeu algumas críticas negativas - a mais severa comparando o filme de Heitor Dhalia a um episódio estendido da série "The O.C.". Aqui está uma compilação de opiniões.

Já "No Meu Lugar", de Eduardo Valente, exibido fora de competição, não teve a mesma sorte. Não sei se foi pouco comentado ou causou pouco frisson mesmo, mas as duas principais publicações internacionais de entretenimento cobrindo Cannes viram a produção brasileira com reservas. A Variety disse que depois de passar muito tempo construindo as personagens, Valente permite que tudo entre em colapso ao seu redor com um final totalmente fora de sincronia com o que veio antes." Já o Hollywood Reporter afirmou que, apesar de este ser uma falha, vale a pena ficar de olho nos futuros filmes que Valente vier a fazer. Tentei achar se a Cahiers du Cinéma assistiu ao filme, mas não localizei o texto. A propósito: o título em inglês é "Eye ot the Storm" (algo como "O Centro do Furacão"). Alguém sabe o motivo?

COBERTURAS

Para encerrar, deixo algumas dicas para quem quiser ir mais fundo na cobertura de Cannes 2009. Como você já deve ter percebido, o blog The Daily, mantido pelo site da distribuidora independente IFC, é nossa referência principal todos os anos por reunir numa mesma página opiniões de diversos críticos. É bem organizado e abrangente, graças ao exemplar trabalho do ex-Greencine David Hudson. Clique aqui para acessar o índice da "cobertura da cobertura" feita por ele, ordenado por filmes e mostras.

Entre os brasileiros, Kleber Mendonça Filho novamente fez o melhor trabalho, tanto pelas opiniões consistentes quanto pela abragência da cobertura, contando o que rolou de principal nas coletivas e ainda postando fotos e vídeos. Enquanto o CinemaScópio não volta em sua forma definitiva, vale a pena acompanhar o blog criado pelo Kleber especialmente para Cannes. Clique aqui.

Para mais opiniões em português, vale conferir ainda as coberturas da Filmes Polvo e da Cinética (esta feita pelo mesmo Eduardo Valente que estava apresentando filme).

LEIA MAIS
 
Copyright (c) 2010 Blogger templates by Bloggermint